sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Cabral Sanciona Texto que libera o FUNK


Reportagem retirada do jornal DESTAK Rio no dia 24 de setembro de 2009.

" A partir de agora,o funk é movimento curtural.A lei N0.5543/09, sancionada ontem pelo governador Sérgio Cabral, prevê que qualquer assunto relativo ao funk será tratado por orgãos culturais do Estado. A autoria é dos deputados Marcelo Freixo e Wagner Montes.
Também ontem foi aprovado norma que libera a realzação de bailes sem restrições, revogando lei do deputado cassado Álvaro Lins."

terça-feira, 14 de julho de 2009

O Mundo Funk Carioca

Começando as postagens sobre o Funk Carioca e Cultura , não poderíamos deixar de mencionar o autor do livro O mundo Funk Carioca,HERMANO VIANNA, mesmo tendo sido escrito em 1988, ainda continua contemporâneo. Encontramos o seguinte texto na sinopse do livro.

"Este livro denso e agradável é produto de uma pesquisa sobre uma área de investigação pouco explorada. Os subúrbios cariocas até hoje constituem um tema da maior importância, já tendo merecido atenção de cientistas sociais que produziram trabalhos estimulantes. Hermano Vianna oferece mais uma contribuição a este conjunto, mas seguindo uma trilha extremamente original: ele vai buscar nos bailes funks, fenômeno relativamente recente, o caminho para lidar com o modo de vida das camadas de baixa renda que habitam os subúrbios ou as favelas do Grande Rio."
Em uma reportagem para Revista Raiz, encontramos um texto enriquecedor para explicar e diminuir o preconceito que ainda existe em relação com o Funk.

"ENTREGAMOS O OURO AO BANDIDO.
POLÍCIA, POLÍTICOS, JORNALISTAS E A ELITE CARIOCA SÃO OS RESPONSÁVEIS PELO FUNK ESTAR ASSOCIADO AO TRÁFICO NAS FAVELAS DO RIO DE JANEIRO. POR HERMANO VIANNA
Em 2002, participei de um ciclo de debates promovido pela Unesco. Meu painel era intitulado “A favela e o asfalto: cultura, poder e movimento social”. Na minha fala fiz um breve resumo da história do funk carioca. Não havia para mim nada mais empolgante na nova cultura das favelas do Rio de Janeiro, interferindo decisivamente na sua relação com o tal “asfalto”.
O funk não tinha ainda conquistado a popularidade que hoje ganhou nos clubes paulistanos ou entre músicos “antenados” do exterior. Mesmo assim foi surpresa ouvir, depois das minhas palavras, a reação da platéia, formada por gente que participa ativamente de movimentos contra a injustiça social no Brasil. Um diretor de rádio comunitária foi categórico: essa música é proibida na minha programação. Uma professora de escola pública disse que educa seus alunos para não escutar funk. E assim por diante. O que acontecia ali era, na minha opinião, muito claro: o funk estava sendo excluído pelos grupos que pretendiam combater a exclusão. O funk era o excluído do excluído.
Eu não deveria ter ficado tão surpreso com esse tipo de reação. Ela fazia total sentido dentro de uma linha antiga de combate ao funk, combate protagonizado por grupos de todos os matizes ideológicos, da extrema direita à extrema esquerda, mesmo aquela que se diz popular, ou pró-cultura popular (que como sabemos não é exatamente aquela de que o povo gosta, mas sim a de que o povo deveria gostar, vide os manuais do CPC). O ataque contínuo isolou o funk cada vez mais para dentro das favelas, para o apoio – quem mais poderia dar apoio, já que todas as outras “forças” eram contra? – dos movimentos armados dos traficantes.
Foi literalmente isto: o poder público, a mídia e os entendidos em cultura popular fizeram todo o possível para entregar o ouro (o ouro cultural produzido nas favelas) para o bandido. Quando eu fiz minha pesquisa de campo nos bailes funk, que resultou na minha dissertação de mestrado e no livro O mundo funk carioca (Jorge Zahar Editor, 1988), as festas eram realizadas em clubes como o CCIP de Pilares, o Cassino Bangu ou o Canto do Rio. A música, quando começou a ser produzida na cidade, era totalmente independente dos “comandos”. Poderia ter continuado assim, se o poder público (com polícia também armada, algumas vezes dando tiros nos equipamentos) não tivesse fechado os bailes dos clubes, se os críticos musicais e as gravadoras não tivessem amaldiçoado o estilo (fortalecendo a pirataria), se o asfalto, por puro preconceito contra “som de pretos e pobres”, não tivesse tentado destruir a cultura que os favelados estavam criando por eles mesmos.
O funk muitas vezes pediu socorro. Ninguém ouviu os discursos do DJ Marlboro, mesmo em reuniões dentro da Secretaria de Segurança Pública (eu estava com ele, na maioria dessas ocasiões), pedindo apenas que o funk fosse considerado cultura e não problema policial. Se o poder público tivesse escutado suas palavras, o funk carioca poderia ser hoje a música da paz na cidade. Teria força para isso: afinal, os bailes que tocavam 100% de música importada em 1988 agora não tocam 100% de música nacional? Como ninguém percebeu a força que essa música tinha, e tem cada vez mais?
Agora todo mundo se espanta com a existência dos proibidões (*)? Quanta hipocrisia! É a colheita do que foi plantado. Responsáveis: policiais, políticos, jornalistas (quanta matéria mentirosa sobre os bailes!), campanhas desgovernadas contra o que a elite diz que é “baixaria”. Mas ainda bem que o funk é mais forte que isso tudo. O proibidão é apenas a banda podre de uma cultura vigorosa e que poderia ser totalmente do bem e da festa. A banda podre deve ser combatida. Mas dizer que todo o funk está podre – tentando exterminá-lo – é uma imbecilidade sem tamanho. É criar cada vez mais proibidões, ou o território propício para a criação de muito mais proibidões. Se todo mundo apoiar o lado bacana do funk – com medidas simples como dar segurança para os bailes (a polícia, em vez de fechá-los, bem que poderia protegê-los) – essa música ainda poderá ajudar a tirar o Rio desses tempos negros que estamos vivendo, tornando-se uma das maiores fontes de orgulho carioca, a cara da alegria de toda a cidade.

(*) Proibidão é um estilo de funk comercializado de forma clandestina cujas canções fazem apologia ao tráfico e à violência contra a polícia (nota da Redação).